A arte de viver, de perceber, de olhar as formas, enfim, o belo é o fio que conduz o olhar por um percurso visual relatando a beleza de estímulos coloridos com as suas vibrações. Arte é a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepções, emoções e ideais, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um ou mais espectadores, e cada obra de arte possui um significado único e diferente. Profª Marisa Susi Feitosa
quinta-feira, 7 de maio de 2020
quarta-feira, 6 de maio de 2020
segunda-feira, 27 de abril de 2020
A IMPORTÂNCIA DE ESTIMULAR A ARTE NA CRIANÇA
O registro da
aprendizagem.
O desenho tem papel fundamental na formação do
conhecimento e requer grande consideração no sentido de valorizar desde o
início da vida da criança, considerando a bagagem que trás de casa, assim como
seu próprio dia-a-dia. O ato de
desenhar deve ser considerado um fator essencial no processo do desenvolvimento
da linguagem, bem como uma espécie de documento que registra a evolução da
criança. A criança ao desenhar desenvolve a auto-expressão e atua de
forma afetiva com o mundo, opinando, criticando, sugerindo, através da
utilização das cores, formas, tamanhos, símbolos, entre outros.
É de ressaltar que o professor deve oferecer para
seu aluno a maior diversificação possível de materiais, fornecendo suportes,
técnicas, bem como desafios que venham favorecer o crescimento de seu aluno,
além de ter consciência de que um ambiente estimulante depende desses fatores
colocados, permitindo a exploração de novos conhecimentos. Partindo do
pressuposto de que não são oferecidos tais suportes, a tendência é que o aluno
bloqueie sua criatividade, visto que não lhe foram oferecidas tais condições.
A importância de valorizar o desenho desde o início da vida da criança se dá pelo fato da necessidade que o universo infantil tem em ser estimulado, desafiado, confrontado de forma que venha enriquecer as próprias experiências da criança. Valorizando a arte, ou seja, o desenho na escola, o professor estará levando o aluno a se interessar pelas produções que são realizadas por ele mesmo e por seus colegas, bem como por diversas obras consideradas artísticas a nível regional, nacional e internacional.
A importância de valorizar o desenho desde o início da vida da criança se dá pelo fato da necessidade que o universo infantil tem em ser estimulado, desafiado, confrontado de forma que venha enriquecer as próprias experiências da criança. Valorizando a arte, ou seja, o desenho na escola, o professor estará levando o aluno a se interessar pelas produções que são realizadas por ele mesmo e por seus colegas, bem como por diversas obras consideradas artísticas a nível regional, nacional e internacional.
Enquanto mediador do conhecimento, o professor é
essencial para incentivar o aluno, seja ele pelo caminho da arte ou por outra
área do conhecimento, oferecendo os melhores suportes, de forma que venha a
somar no crescimento e formação do mesmo.
Elen Campos Caiado
Graduada em Fonoaudiologia e Pedagogia
Equipe Brasil Escola
Graduada em Fonoaudiologia e Pedagogia
Equipe Brasil Escola
quarta-feira, 22 de abril de 2020
O papel da arte envolvendo a criança
“A criança tem uma sabedoria e uma
percepção incrível e ao mesmo tempo garantia para um futuro promissor. A arte é
uma das chances que a criança e o adolescente têm para se expressar de maneira
diferente contanto com seu espaço e orientação de um especialista na área. Cada
vez mais fica aos olhos dos alunos acreditarem o que é, na realidade, “Arte” e
para o que serve. Através de muita orientação e dedicação, o educador tem de
mostrar um caminho que o aluno se espelhe, admire e aprecie o mundo artístico
de uma forma clara, com precisão e entendimento. A arte vem então mostrar o
estilo, a estética, a música, o nosso folclore, as técnicas utilizadas nas
pinturas e as atividades desenvolvidas no cotidiano do ser humano. Tudo isso
deixando o aluno com liberdade de expressão para criar a sua própria
característica no seu trabalho e após admirar o que fez. Com certeza, tendo
esse objetivo de alcançar o “eu” de cada ser, consegue também atingir a amizade
e o respeito de cada um.
O desenvolvimento de um trabalho bem
estruturado consequentemente vem a transformar o educando com mais estímulo e
vontade de sempre fazer algo mais. É a partir daí que faço o meu trabalho com
os meus alunos, começamos a conhecer a história da arte, o desenrolar dos
movimentos artísticos, vida e obras dos grandes mestres da pintura,
arquitetura, etc. e aplicamos em cima disso o aprendizado colhido com
atividades plásticas, pesquisas e exposições dos trabalhos.”
Profª Marisa Susi Feitosa
segunda-feira, 13 de abril de 2020
segunda-feira, 6 de abril de 2020
sexta-feira, 3 de abril de 2020
O que o ensino da Arte pode aprender com a arte?
Debate: a relação entre o ensino de Arte na escola
e a produção artística contemporânea, trazendo os exemplos de projetos reais,
realizados em escolas brasileiras. O objetivo é provocar a reflexão sobre como
as transformações do campo da arte refletem na Educação.
Muitos projetos se perdem em temas muito amplos que inviabilizam pesquisas e investigações, na busca de contextualizações ou de temas relacionados a outras áreas, como se a disciplina de Arte não tivesse conteúdos e objetivos próprios. Tratar de uma única linguagem e de uma única modalidade pode ser considerado uma qualidade.
O contexto em que o trabalho se realiza, que podemos chamar de contexto de recepção, também influencia os processos de construção poética. Isso ocorre porque o corpo guarda memórias do ambiente que habita. Essas memórias podem ficar adormecidas e um modo de ativá-las é a via poética.
1. Para que ensinar Arte na escola de
hoje
'A Casa É o Corpo', instalação de
Lygia Clark
"Arte
é o que faz a vida ser mais interessante que a arte".
(Robert Filliou)
Falar sobre o ensino
da Arte em uma perspectiva contemporânea significa olhar para os acontecimentos
do passado, do presente e do futuro (por que não?), presentificando-os.
A arte que se produz hoje é a maior referência que tenho para refletir
sobre isto, e vou tentar explicar o motivo. Quando estou em contato direto com
a arte contemporânea, parece que, ao mesmo tempo, tudo que já se fez na
história da arte e o que ainda está por ser feito se coloca em mim (e não
diante de mim). A arte precisou de todos esses séculos para colocar em
evidência que o seu valor está, justamente, na relação que estabelecemos com a
arte em si, e não nos seus objetos (obras).
Estar em contato com a arte parece
ser muito revelador, e a palavra contato, neste caso, é fundamental. Contato atende a duas dimensões
importantes da experiência com a arte: o tocar - relacionar-se com matérias e
materiais - e o ser tocado - sentir-se afetado pelos acontecimentos. Nas duas
dimensões o indivíduo ocupa um lugar fundamental.
O contato dota de sentido as experiências, faz com que sujeito-ação-objeto
se alinhem em uma relação horizontal e sem hierarquias, na qual todos são
igualmente importantes - o que podemos chamar de vivo contato.
Deve-se observar que há uma dimensão política presente nessa ideia -
política, como uma perspectiva mais ampla de agir no mundo e sentir-se potente
para isso. O que entendo por ensinar e aprender Arte hoje tem a ver com o agir
poeticamente no mundo, como um caminho para poder (ou sentir o poder de)
entender o mundo e se entender no mundo.
2. Pluralidade nos projetos de Arte na
escola
Arte e natureza. Projeto da
professora Paula Regina Vargas
O mundo é plural e como não poderia
deixar de ser, a arte de hoje também é, e consequentemente a Educação. Tenho
procurado entender os projetos interdisciplinares - compostos por mais de uma
disciplina - desse ponto de vista. A pluralidade revela-se como possibilidade
de conectar conhecimentos de diferentes naturezas, tornando possível a
constituição de uma rede de saberes que pode potencializar a aprendizagem dos alunos,
por dotá-la de sentido. Essa ideia exige do professor ou dos professores (os
envolvidos em um projeto de natureza interdisciplinar) uma articulação
cuidadosa na elaboração das situações de ensino, para que os conteúdos não
sejam tratados na superficialidade e de modo artificial.
Tomar decisões sobre a integração de diferentes disciplinas na
elaboração de projetos requer um tratamento dos conteúdos enquanto campo de
conhecimento. Dominar diferentes conhecimentos didáticos, portanto, é uma
premissa para o êxito dos projetos interdisciplinares.
Observamos, hoje, na poética de muitos artistas, investigações amplas,
que implicam diferentes linguagens e não raro abarcam diversas áreas do
conhecimento. Essas conexões são fundamentais para o trabalho acontecer e, em
seu processo, o artista precisa mergulhar em pesquisas que exigem dedicação e
uma imersão na complexidade de cada área. Como podemos transpor para a aula
este espírito? Leonardesco? de olhar para o mundo por diferentes pontos de
vista ao mesmo tempo artísticos, literários e científicos, sem descaracterizar
o que há de mais precioso nesses processos?
A pluralidade, fenômeno presente na contemporaneidade, exige cautela,
para que possamos levá-la para a realidade da sala de aula mantendo a potência
de integração e não de mistura incipiente. Questionamentos do tipo "Quais
linguagens ou quais áreas são fundamentais na realização do projeto?" ou
"Se uma área ou disciplina for suprimida, ainda assim mantém-se o sentido
do trabalho?" são algumas das perguntas que ajudam no momento da tomada de
decisões em relação a opções interdisciplinares e de integração de linguagens.
Pode-se concluir, por exemplo, que um projeto lide com uma única linguagem,
realizado em uma única disciplina, e isso não faz dele um projeto menos
complexo ou pouco significativo.
O que caracteriza a opção por trabalhar com projetos tem mais relação
com a necessidade de desencadear processos que exigem mais tempo e uma
quantidade de experiências que possibilitem um mergulho na complexidade da
prática artística, do que com a necessidade de envolver mais de uma disciplina
para torná-lo complexo.
Bom
exemplo: um projeto sobre o desenho ajudou a transformar o olhar dos alunos
Muitos projetos se perdem em temas muito amplos que inviabilizam pesquisas e investigações, na busca de contextualizações ou de temas relacionados a outras áreas, como se a disciplina de Arte não tivesse conteúdos e objetivos próprios. Tratar de uma única linguagem e de uma única modalidade pode ser considerado uma qualidade.
Assim, um projeto pode tratar de questões próprias da linguagem, com
propostas descontextualizadas, mas com aprendizagens específicas, que podem no
processo, ser experimentadas em diferentes contextos didáticos, a ponto de
transformar hábitos cotidianos.
Por exemplo, o projeto O
artista e a natureza, realizado pela professora Elana Gomes Pereira, da Escola Projeto Vida
na cidade de São Paulo, partiu de uma pergunta: "Quais seriam as possíveis
relações entre arte e natureza?". A primeira hipótese levantada pelos
estudantes estava relacionada à ideia de contemplação da natureza, ou seja,
olhar para as paisagens. As crianças acertaram em cheio. Mas o caminho para que
pudessem estabelecer essa, que é uma das possíveis relações entre o artista e a
natureza, seria decisivo, e não é tão óbvio. A observação da natureza para
desenhá-la, o próprio ato de desenhar na busca de diferenciar graficamente a
diversidade de linhas, texturas, formas, cores e tonalidades faz com que o
olhar novamente para a natureza torne-se mais contemplativo, pois mais aspectos
tornam-se visíveis.
A sequência de atividades planejada pela professora abarcava algumas
propostas de desenho de observação direta (da própria natureza) e indireta (de
fotografias da natureza). Essas propostas contribuíram para que os alunos
investigassem quais elementos gráficos poderiam ser utilizados para desenhar, e
essa investigação tinha uma abertura ajustada, de modo que cada aluno pudesse
fazer suas pesquisas gráficas, na busca de diferentes soluções de enquadramento,
texturas, espessuras da linha, ou seja, uma pesquisa muito peculiar a cada
aluno.
Essas aprendizagens de conteúdos relativos à modalidade desenho tinham
um contexto bem delineado em relação à ampliação do repertório gráfico das
crianças, mas o tratamento didático dado a elas, ou seja, o fato de os alunos
precisarem observar detalhadamente a natureza para descobrir uma infinidade de
formas e linhas, e transpor esse tipo de observação para a linguagem do
desenho, não só modificou o modo de desenhar, mas transformou o modo como todos
olhavam para a natureza.
Entre uma proposta de desenho e outra, a professora levou algumas
imagens de artistas que realizaram desenhos de observação da natureza, para que
os alunos pudessem estabelecer relações entre suas pesquisas gráficas e aquelas
de outros artistas. Essas trocas de repertório gráfico são bem-vindas. Com
certeza Van Gogh e Benedito Calixto, artistas que os alunos apreciaram, iriam
se deliciar com essa troca de recursos gráficos.
3. A construção de identidade em três
propostas de trabalho em Arte
Uma das etapas do projeto de Arte
Revelando Riquezas, desenvolvido pela professora Vera Terrabuio Lucato, na
cidade de Dois Córregos, em São Paulo
Apreciar
arte na escola é mais do que gostar.
Apreciar é um dos eixos que
contribuem para que os alunos estabeleçam uma relação sensível com a arte e por
que não dizer, com diferentes dimensões da vida. Como ser tocado pela arte?
Certa vez, ouvi o professor Yves de La Taille dizer que atribuir valor
(referindo-se à relação com a arte) significa atribuir afeto.
Quadros
vivos foi o título
dado ao projeto que a professora Marcela Wanderley Gaio, da Escola Municipal
Professora Leocádia, no Rio de Janeiro, realizou junto aos alunos de 9º ano. A
professora queria que os alunos se aproximassem mais da arte e, com certeza,
isso aconteceu. Os alunos não apenas se aproximaram, mas literalmente entraram
na obra de corpo e alma.
Ela queria que os alunos se expressassem por meio de diferentes
materiais e formas. Eles deveriam recriar no plano tridimensional, obras
bidimensionais. Os alunos foram desafiados a pesquisar materiais e objetos para
concretizar a proposta e para isso trabalharam com diferentes modalidades e
linguagens: colagem, construção, instalação, em alguns casos com a própria
pintura e com o corpo (performance). Trabalharam, ainda, com a fotografia para
registrar a efemeridade do quadro vivo.
O que se destaca nesse trabalho é o diagnóstico que a professora faz em
relação ao mundo plural em que seus alunos adolescentes vivem - eles estão
imersos em uma diversidade de linguagens e lançam mão delas para se comunicar e
se relacionar.
Ela buscou conhecer mais sobre o
assunto, pesquisou artistas que integram linguagens e definiu a entrada do
projeto ao apresentar o videoclipe 70 Million da banda americana Hold Your Horses,
que se apropria de obras de arte bastante conhecidas, criando releituras com
seus próprios integrantes.
Quando a professora opta por transformar quadros em quadros vivos, o
corpo passa a ser um elemento fundamental no trabalho e as relações entre as
linguagens visual e corporal passam a ser articuladas. Além disso, a proposta
de solicitar que os alunos escolhessem as obras que queriam recriar merece
atenção especial. Os estudantes verbalizaram em relatórios que nessa etapa
tiveram muita dificuldade em relação à escolha da obra e é necessário refletir
sobre o modo como se relacionaram com a proposta planejada. Colocar o corpo na
obra é colocar-se na obra. Isso significa experimentar estar ali, ser parte
dela. Onde escolhemos estar e por que são perguntas fundamentais a serem
levadas aos alunos. Faz pensar sobre a obra e refletir sobre si. Um trabalho
que toca em questões de identidade.
A partir do momento em que o corpo passa a ser parte da obra, e não
qualquer parte, mas a mais importante, abre-se um campo de investigação das
relações entre o corpo e o espaço. O corpo pulsa nesse espaço e a experiência
que tive ao ver as fotos dos alunos dentro da obra foi muito importante. A
expressão estava no rosto e no corpo de cada um. Quando a professora pediu que
eles fizessem a releitura, ou seja, que transformassem o quadro, parece que se
romperam barreiras com relação à pessoa retratada no quadro. E fica a pergunta:
será que há identificação entre o retratado e aquele que olha o retrato? Vale
apreciar os retratos e, a partir daí, experimentar novas expressões e modos de
colocar o corpo, para compreender porque esse foi o quadro escolhido. Analisar
cada etapa do projeto, ouvir os alunos e como estão se relacionando com as
propostas é uma tarefa necessária.
A fotografia cumpre o papel de
documentação nesse projeto e traz para a discussão um conceito importante hoje:
a efemeridade. A linguagem que está em foco na proposta descrita acima é a
performance, que tem como princípio fundante a efemeridade.
Olhar poético para desvelar o lugar
Olhar poético para desvelar o lugar
O contexto em que o trabalho se realiza, que podemos chamar de contexto de recepção, também influencia os processos de construção poética. Isso ocorre porque o corpo guarda memórias do ambiente que habita. Essas memórias podem ficar adormecidas e um modo de ativá-las é a via poética.
O projeto Revelando riquezas,
realizado pela professora Vera Cristina Terrabuio Lucato da EMEFEI Oscar
Novakoski, em Dois Córregos, a 255 quilômetros de São Paulo, abarca as questões
ligadas à memória e que provocam reflexos na realidade, mesmo que as pessoas
não se deem conta disso imediatamente. Vera optou pela via poética para que os
alunos do 9º ano pudessem olhar para o entorno e refletir sobre como o lugar em
que vivem está presente em cada um e como ele pode ser considerado na
constituição da identidade do grupo.
O projeto de fotografia abarcou as dimensões documental e artística.
Documental, pois a proposta tinha como foco a valorização do trabalho rural; e
artística porque a professora propõe que os alunos sejam tocados pela realidade
por meio do mergulho em um processo de criação focado na linguagem fotográfica,
uma via poética para agir sobre a realidade e refletir sobre ela.
O currículo
de Arte da escola
Oscar Novakoski prevê o trabalho com arte brasileira. No 9º ano os alunos
estudam a fotografia e sua história. A professora observou que os alunos
fotografavam frequentemente com seus celulares para veicular as imagens nas
redes sociais. Como conectar esse interesse pela fotografia e pela imagem de si
com um trabalho que possa tocar em questões relacionadas à identidade e à realidade
social local? Como olhar para o trabalho rural, realizado pela grande maioria
dos familiares desses alunos, que muitas vezes é desconsiderado? Os alunos
puderam experimentar um processo de criação na linguagem fotográfica e
encontraram uma via de expressão e descoberta da riqueza do trabalho rural que,
de algum modo, diz respeito a toda comunidade, direta ou indiretamente.
A poética é um conceito que está presente em diferentes propostas
curriculares, no entanto, é importante fazer considerações sobre como o
contexto em que os projetos acontecem imprimem marcas e dão diferentes nuances
à ideia, levando em consideração a realidade local. É possível identificar,
também, como o contexto em que os trabalhos se realizam é determinante e influência
nos planejamentos.
O projeto Olhar
poético criado pela
professora Dora Lilia de Campos Sabor da E.M.E.F. Marechal Deodoro da Fonseca,
São Paulo, também abarca questões relativas ao caráter poético da arte. Se a
professora Vera, de Dois Córregos, provocou uma reflexão sobre a identidade do
grupo, Dora investiu na identidade singular e propôs que cada aluno elaborasse
um portfólio para organizar seu processo, tornando visível a poética de cada
estudante.
Olhar
poético e poética são coisas diferentes e facilmente confundíveis. No primeiro projeto, os
alunos experimentaram o olhar poético que favoreceu um novo olhar para si e
para o entorno; no segundo, cada aluno realizou um conjunto de fotografias, e
este conjunto revelou as poéticas individuais, as linhas de pensamento de cada
um.
4. As relações entre processo e produto
nos projetos de Arte
Espetáculo de dança contemporânea do
'Les Ballet Jazz de Montreal', Canadá
Quais as possíveis relações
entre processo e produto nos projetos de Arte? Essa é uma pergunta fundamental quando pensamos
no ensino de Arte. Retomando a ideia de que o valor da arte não está no objeto,
mas na relação que se estabelece com ele, como vimos no primeiro capítulo deste
artigo, esse deslocamento de valor reflete, também, mudanças nas relações
artista-obra.
Em diversos momentos da história da arte o artista questionou sua
posição de genialidade. Nos anos 1960/70 esses questionamentos passaram a ser o
próprio tema da produção artística e, embora esse posicionamento tenha sofrido
transformações ao longo dos anos, não há dúvida de que foram deixadas marcas
que ainda estão presentes nas obras de arte produzidas hoje.
Para romper com a separação
arte e vida, muitos artistas despiram seus trabalhos de molduras (no caso da
pintura) e bases (no caso das esculturas). Os objetos de arte passaram a ocupar
o mesmo lugar que as pessoas ocupam. Eles assim tornaram-se corpos. Surgem
novas possibilidades, como as ações e as performances - a ideia de obra em
processo. Em alguns casos, a obra apresenta uma incompletude, algo de
inacabado, que deixa abertura para uma ação, mesmo que mental, por parte do
público.
O que acontece é que, mesmo quando estamos diante de uma obra, não é
possível nos relacionarmos com ela sem presentificar o processo. Toda obra de
arte vista hoje traz impressa, mesmo que só por indícios, um processo, uma
incompletude, algo do fazer ou do por fazer. Processo, portanto, passa a ser um
conceito central.
Os projetos
didáticos de Arte, de um modo geral, caracterizam-se por apresentar um produto final, definido
e compartilhado junto à classe desde seu início. Essa é uma condição
fundamental que dá sentido ao processo de aprendizagem. No entanto, se no campo
da arte o produto está em xeque, é preciso refletir sobre qual é o lugar do
produto e do processo nos projetos de Arte na escola.
Demorei um tempo para compreender o
título do projeto de Rosely Novak, professora do Colégio Renascença, de São
Paulo: Um projeto em construsom. A cada nova leitura, e conforme fui
entendendo mais profundamente os processos da professora e de aprendizagem dos
alunos, pude perceber que esse título traz a concepção de algo que não está
pronto, que está em processo. Para a professora, a experimentação e o processo
são o eixo do trabalho.
Como ensinar música para as crianças de hoje? Essa é uma questão que foi
sendo respondida enquanto lia seu trabalho. Rosely aponta que queria que os
alunos brincassem, pelo menos no início. Chama mais atenção como a professora
observa e escuta as crianças. É um trabalho contemporâneo. As crianças brincam
hoje? Como brincam, com o que e com quem? Que transformações aconteceram na
música e como isso se reflete no seu ensino? O brincar não é conteúdo e sim a
consideração de que se está ensinando música para crianças do 2º ano do Ensino
Fundamental.
A professora dá tratamento didático muito adequado aos conteúdos,
respeita e dá espaço para o movimento de cada grupo e de cada criança no grupo.
Quando decide levar os materiais aos poucos, demonstra controle sobre sua ação
e favorece que os alunos tenham autonomia para controlar as próprias ações.
Conforme os estudantes vão descobrindo as possibilidades rítmicas, a professora
oferece mais condições para que elas sejam exploradas e aprofundadas. As
crianças exploram, descobrem e criam durante todo o processo. Quando os alunos
apontam que querem construir instrumentos, ela os apoia, mas quando o movimento
do grupo aponta para instalações sonoras, esse caminho também se revela
possível.
Todo o trabalho foi registrado em vídeo e fotografia - material que foi
apresentado aos pais em um dia combinado. Vale ressaltar que as imagens dessa
apresentação mostram as crianças de uniforme (a roupa que usam no dia a dia), o
espaço de apresentação é o da sala de aula e os materiais são os mesmos
utilizados ao longo do processo. O que mudou? Os materiais viraram instrumentos
ou instalações sonoras, e em cada uma das quatro classes as crianças estavam
organizadas de acordo com a composição criada até aquele momento do processo, o
que revela o percurso de cada turma. Em todos os casos, a apresentação ganhou
tratamento de processo, davam a sensação de que poderiam continuar explorando e
experimentando, ou seja, ainda há coisas para serem descobertas ali.
O professor Adriano José Pinheiro da
EM Tirsi Anna Castellani Gamberini, na cidade de Mairiporã, a 41 quilômetros de
São Paulo, desenvolveu junto a seus alunos o projeto Improvisação
e Dança. Nesse projeto
também há a proposta de dar a mesma importância à improvisação e à dança. Em
uma das primeiras aulas, o professor, durante a roda de conversa, perguntou aos
alunos se a improvisação que fizeram poderia ser considerada dança. E seus
alunos responderam que não. As propostas das aulas seguintes mudaram esta
concepção.
É notável como o professor trata o
próprio cotidiano da aula como um ritual e uma coreografia. Processo
e produto aqui se equivalem. A cada aula, aquecimento, improvisação, roda de conversa. A repetição
aparece como estratégia de assimilação e memorização, mas não de uma
memorização mecânica, ao contrário, de uma memorização sensível e carregada de
sentido. Nas rodas de conversa não faltaram situações de apreciação de
importantes contribuições no campo da dança e da performance - como Pina
Bausch, Ballet Stagium e Yves Klein -, trazidos como referências para que os
alunos pudessem se alimentar de outras ideias.
Todas essas experiências foram guardadas em uma caixa imaginária que,
segundo o professor, não existia, ela era a própria memória do corpo. Essa foi uma
das estratégias utilizada para valorizar e organizar os movimentos criados pelo
grupo a partir de gestos recortados das relações que podem estabelecer com
objetos do cotidiano ou de investigações de como o corpo pode ocupar os
espaços. O silêncio foi uma condição estabelecida desde o início do processo, e
tanto o professor quanto os alunos apontam que ele era necessário para que a
linguagem do corpo pudesse emergir.
Os movimentos foram retomados a partir da consulta dos movimentos
guardados na caixa imaginária e dos registros fotográficos feitos pelo
professor. Todo o processo foi incorporado à coreografia apresentada aos pais e
à comunidade escolar. O professor Adriano comentou que a coreografia final era
muito simples, o que revela todo o processo de trabalho. Argumentou sobre a
importância de trazer essas ideias para compartilhar com a comunidade, uma
mudança de cultura. Todos os corpos podem se movimentar, ser expressivos e
dançar.
5. A relação arte-público no
planejamento das atividades escolares
Os alunos do professor Alessandro de
Oliveira Branco aprenderam a tocar instrumentos musicais nas aulas sobre
Cartola e fizeram das apresentações para a comunidade parte do processo de
aprendizagem
As transformações
na relação arte-público estão alinhadas ao deslocamento do valor da arte deixar de estar
no objeto para estar presente na relação que se estabelece com a própria arte.
As produções artísticas precisam ser ativadas pelo público, que passa a ter um
papel determinante no processo criador e, em alguns casos, a sua participação é
o próprio tema da obra.
Os reflexos desse outro tipo de relação podem ser identificados quando
vemos manifestações artísticas acontecendo em espaços públicos - ruas, praças
ou fachadas de prédios. Espetáculos de dança podem acontecer fora do palco, no
chão, com os dançarinos entre o público. Apresentações de música na porta do
metrô, intervenções visuais em orelhões etc. Esses são alguns exemplos que
evidenciam um corpo a corpo público-obra como alternativa para romper com
relações fetichistas e o caráter de espetáculo que muitas vezes são atribuídos
à arte.
A grande maioria dos projetos de Arte na escola (e alguns de outras
áreas e disciplinas) termina com uma apresentação ou exposição. A intenção é
compartilhar junto à comunidade o que os alunos estudaram por um período. As
finalizações guardam conexões diretas com a ideia de produto final, mas também
estão alinhadas com a relação arte e público. A relação obra-público faz parte
do sistema da arte.
O projeto Cartola na cartola,
elaborado pelo professor Alessandro de Oliveira Branco, na Escola Municipal de
Tempo Integral José Carlos Pimenta, no vilarejo de Vila Rica em Goiânia,
levou-me a pensar sobre as apresentações públicas a partir de uma nova
perspectiva. Perguntei ao professor como ele relaciona as apresentações com o
processo de aprendizagem dos alunos, afinal ele menciona que elas são uma
alternativa cultural na comunidade. Alessandro disse que as apresentações são
regulares no vilarejo e que a comunidade participa bastante. Apresentar-se é
estímulo para que os alunos continuem tocando e os iniciantes vislumbrem
perspectivas em relação às aprendizagens em música.
Os alunos se apresentam em eventos culturais e na escola, uns para os
outros - os mais experientes tocam para os mais novos cantarem. Há um clima de
ensaio nas apresentações, os alunos aprendem a estabelecer outro tipo de
relação com o público e a romper com a tensão que é comum nas finalizações, de
que tudo precisa dar certo. Pode-se aprender com os erros.
O professor Alessandro optou por fazer uma aproximação dos alunos com a
música pelo fazer musical - experimentar, ensaiar um repertório, apresentar-se,
ouvir, apreciar músicas variadas e tocar são ações tratadas como conteúdo. As
apresentações atingiram uma dimensão cultural, mas não se perde a dimensão de
que esses meninos e meninas são estudantes de música.
As transformações constantes que podemos identificar na arte, por meio
do estudo, da investigação e do contato direto com ela implicam em reflexões
acerca do ensino da Arte. E isso não se restringe ao ensino de arte
contemporânea. Vale para toda arte, de qualquer tempo ou lugar. As aproximações
arte-público revelam um caráter educativo presentes nela mesma, indicando
possibilidades de transposição didática bastantes potentes.
Marisa
Szpigel é Coordenadora de Arte da Escola da Vila, em São Paulo e selecionadora
do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10.
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