Em 18 de julho de 1936, a sublevação das tropas acantonadas em Marrocos foi o estopim da Guerra Civil Espanhola, conflito que durou três anos e foi um prelúdio da Segunda Guerra Mundial. Picasso, que até então não havia mostrado suas preferências políticas, condenou o levante militar. Em reconhecimento por seu gesto, o governo espanhol o nomeou diretor do Museu do Prado, cargo que nunca chegou a exercer.
Em 1937, a situação política estava num ponto de ruptura. Depois de tolerarem o ameaçador rearmamento alemão e o golpe italiano na Etiópia, as democracias burguesas assistiam inertes à agressão fascista na Espanha. Sabiam que o triunfo da reação espanhola assinalaria o término da democracia na Europa, mas remiam, opondo-se a ele, acelerar o processo revolucionário das classes trabalhadoras. Inaugurando-se uma exposição internacional, dedicada ao trabalho, ao progresso e à paz.
A Espanha republicana participa com uma finalidade política: apelar à solidariedade do mundo livre, demonstrar um país com desenvolvimento da democracia, servia de alerta aos cidadãos espanhóis de um conflito uma tragédia que envolveria o mundo inteiro. Em janeiro de 1937, em razão da Exposição Internacional de Paris, a ser aberta em maio, o pavilhão espanhol devia ser ornamentado por uma pintura mural de Picasso, o pintor espanhol agora universalmente aclamado como o gênio artístico do século. Com sua participação no evento, a República espanhola procurava gerar um efeito favorável e vital para sua causa. Era uma tentativa de forçar o apoio das potências democráticas em favor da República diante da ameaça representada pelo general Francisco Franco, que recebia apoio militar e político de Hitler e Mussolini.
No campo artístico, os republicanos conclamaram a colaboração dos mais reconhecidos artistas espanhóis da época: os arquitetos Josep Lluís Sert e Luis Lacasa, os pintores Picasso e Miró, os escultores Julio González, Alberto Sánchez e o americano Alexander Calder, o cineasta Luis Buñuel e o fotógrafo e diretor geral de Belas – Artes Josep Renau.
A guerra chegava e com ela a critica de Picasso, que se filiou, em 1944, ao Partido Comunista. Guernica, uma de suas obras mais conhecidas, já havia sido um protesto nada silencioso contra o sangue derramado no bombardeio a cidade basca, Guernica, pelos fascistas, em 26 de abril de 1937. O ataque aéreo deflagrado pela Legião Condor da Alemanha nazista proporcionou o tema do que se tornaria sua obra – prima. Em 1º de maio, Picasso tomou conhecimento da tragédia ao ler em Ce Soir a reportagem “Visões de Guernica em chamas”, ilustrada com fotos em preto – e - branco. Impressionado pela brutalidade do ataque que deixou 1660 mortos e 890 feridos, Picasso traçou os primeiros esboços de sua obra mais universal.
Sondagem do eu e os cenários da pátria. Em contato com os surrealistas Picasso trabalha depois de meia centena de estudos prévios, em 11 de maio Picasso começou a trabalhar a tela. Até 4 de junho, data em que concluiu a obra, fez seis modificações da proposta original, que foram fotografadas por Dora Maar. A ordem compositiva foi determinada na primeira versão. A imensa tela se estrutura a partir de um grande triângulo que domina o centro do quadro e se estende dos dois vértices inferiores até o ponto mais alto de seu eixo vertical. O quadro foi pintado em preto – e – branco, com cinzas e toques de azul. Para alguns especialistas, a monocromia da obra se deve ao impacto gerado no pintor ao ver as fotografias do massacre. Outros estudiosos, por sua vez, acreditam que a origem tenha sido o antecedente de Desastres da Guerra, de Goya.
Guernica apresenta poucos personagens – seis seres humanos e três animais (um touro, um pássaro e um cavalo). O conjunto, porém, proporciona uma sensação espacial angustiante, porque Picasso encerrou a ação num espaço interior, em que o tamanho das figuras em relação à arquitetura acentua o impacto claustrofóbico. Os efeitos expressionistas do contraste entre brancos e negros e a distribuição dos elementos cenográficos (as edificações, a lâmpada, o chão de tijolinhos, a lança estilhaçada, a flecha, a mesa, as chamas) reproduzem o efeito de um bombardeio e criam um caos vertiginoso e desconcertante.
Consciente de que a obra seria admirada por pessoas diversas, Picasso evitou referências diretas a uma realidade passível de ser identificada ou relacionada à determinada opção política. Assim, Guernica tem sentido atemporal e constitui alegoria universal contra a guerra. As formas clássicas e cubistassão por isso submetida a um tratamento expressionista, sofrendo modificações, passível de ser identificada fragmentação das formas. Começa a pintar tudo a sua volta que o excita, heróico ou trágico. A obra, um “grito na parede”, se converteu em ícone do século XX. Grande parte de seu êxito comunicativo baseia-se na simplicidade com que Picasso expressou a dor. Para isso recorreu a seu caudal artístico.
Irônico, Mario Pedrosa notou que Guernica trouxe definitivamente a febre muralista para a arte brasileira: pinturas figurativas feitas em grandes murais e espaços públicos vinham sendo produzidas por grandes mestres modernos, como o mexicano Diego Rivera. Isto é verdade, mas é verdade também que a influência de Guernica já existia mesmo antes da obra vir para o país. Bom exemplo é a série Bombardeio, do pintor Clóvis Graciano (1943), um eco de Guernica.
Desde o inicio daquela década, sua pintura cubista estava impregnada das teorias surrealistas. O resultado foi uma tela aberta à compreensão universal que permitia identificar os motivos. Em Guernica, a singeleza plástica acentuou o ar de inocência dos personagens, cujos corpos violentados e boas abertas evocam dor ou perplexidade. Essa obra revolucionou a pintura histórica. Não há vitoriosos, apenas vítimas. Diante do radicalismo da linguagem plástica, que elevou o quadro à categoria de obra universal, a narração é fútil.
No fim de 1939, Guernica integrou uma grande exposição sobre Picasso no Museu de Arte Moderna de Nova York. Com a derrocada da República espanhola, o quadro ficou sob custódia do museu nova – iorquino até voltar à Espanha em 1981. Picasso começa, então, adquirir uma nova versão as suas pinturas, vistas pela brutalidade e pela ternura, pela violência e pela piedade. Com toda a sua raiva e emoção começa a registrar através da pintura o horror do acontecimento de discórdia.